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Estratégia para recuperação da Mata Atlântica pode triplicar os benefícios ambientais reduzindo os custos pela metade

Abordagem inédita desenvolvida pelo IIS, que simula diferentes cenários para identificação de áreas prioritárias para recuperação da vegetação nativa, aumenta em até oito vezes a relação custo-benefício para a conservação da biodiversidade.

O Brasil assumiu o compromisso internacional de restaurar 12 milhões de hectares até 2030. Deste total, 5,17milhões devem ser na Mata Atlântica, o que representa uma área de cerca de 5% desse bioma. De acordo com a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN) Brasileira, de 2012, os proprietários de terras localizadas nesse bioma devem manter uma área equivalente a 20% do tamanho da sua propriedade com vegetação nativa. Esta reserva pode ser dentro da propriedade ou por meio de compensação em propriedades de terceiros localizada no mesmo estado ou bioma.

A restauração da vegetação nativa traz benefícios como a conservação da biodiversidade – por meio da preservação de espécies ameaçadas de extinção – e mitigação das mudanças climáticas - por meio do sequestro de carbono emitido na atmosfera pela pecuária e queima dos combustíveis fosseis – mas implica em custos de restauração (plantio e mudas e sementes) e de oportunidade (conversão de áreas utilizadas para agricultura e pecuária em floresta).

A abordagem inovadora - desenvolvida pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) - identifica as áreas prioritárias para recuperação na Mata Atlântica, considerando o melhor custo-benefício envolvendo esses fatores. Baseada em Programação Linear (PL), a ferramenta desenvolveu um conjunto de cenários possíveis de recuperação florestal em escala nacional na Mata Atlântica brasileira, com pelo menos 30% melhor desempenho do que o software convencionalmente usado. O PL também pode ser mais personalizado, permitindo a incorporação de outros aspectos de restauração relevantes para contextos socioecológicos específicos.

No “cenário de base”, todos os proprietários restaurariam áreas dentro de suas propriedades até o limite de 20% da área. No universo de cenários alternativos foram simuladas diferentes formas de priorizar os objetivos-alvo, alguns levando em conta apenas um objetivo (conservação da biodiversidade, mitigação das mudanças climáticas ou redução de custos), outros levando em conta mais de um. No total, foram levantados 382 cenários variados baseados em possibilidades dispostas na lei.

Ao final, o estudo conclui que cenários que consideram mais de um objetivo-alvo simultaneamente, chamados cenário multicritérios, resultam nas soluções mais custo-efetivas. Uma dessas soluções, por exemplo, poderia evitar a extinção de 26% dos 2.864 espécies da flora e da fauna (um aumento de 257% em relação ao cenário base) e sequestrar 1 bilhão de toneladas de CO2Eq (um aumento de 105%), enquanto os custos seriam reduzidos na ordem de 28 bilhões de dólares (redução de 57%) em comparação com o cenário base. Isso se traduz em um aumento de oito vezes na relação custo-benefício para a conservação da biodiversidade.

Esta abordagem permite não apenas combinar a economia de escala e a eficiência ecológica com a priorização espacial multicritério, mas também gerar e avaliar sistematicamente soluções que combinam diferentes pesos para os benefícios.

Segundo o economista e cientista ambiental Bernardo Strassburg, diretor do IIS e autor principal do estudo, a solução atende tanto aos interesses dos ambientalistas – preocupados com a conservação da biodiversidade e mitigação das mudanças climáticas; quanto dos proprietários, que serão beneficiados pela redução dos custos da restauração, que estão obrigados a cumprir por exigência da LPVN. “O cenário base é o que trás os piores resultados, tanto para a natureza quanto para os proprietários que devem arcar com os custos da restauração. E possivelmente é o que será adotado caso essa abordagem não seja adotada”, afirma Bernardo, que assina o estudo com outros 24 cientistas de diversos países.

A descoberta inédita foi publicada num artigo na renomada revista Nature Ecology & Evolution.  A ferramenta será também disponibilizada para o Ministério do Meio Ambiente e auxiliará o governo na tomada de decisão sobre políticas públicas de recuperação da vegetação nativa.

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