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Ilhas de calor e desigualdade climática: por que a natureza importa

 

Centro do Rio de Janeiro

Carolina Mazzi e Fernando Resende

O verão de 2026 chegou com força em todo o país. Mas são os habitantes do estado do Rio de Janeiro que vêm sofrendo mais com o calorão. Só no dia 12 de janeiro, por exemplo, nove dos dez maiores registros de temperatura do Brasil foram no estado, concentrados principalmente em áreas densamente povoadas, como a capital, além de municípios como Niterói e Duque de Caxias. Em alguns pontos, os termômetros chegaram aos 41 °C.

Mas por que o calor extremo nesses locais acende um sinal de alerta?

Em regiões com alto grau de urbanização, as temperaturas elevadas favorecem a formação das chamadas ilhas de calor: áreas mais quentes e com menor umidade do ar do que o entorno. Elas surgem onde há grande concentração de asfalto, concreto e edifícios, combinada com pouca ou nenhuma cobertura vegetal. Nesses locais, o calor absorvido durante o dia é liberado lentamente à noite. Ao mesmo tempo, a falta de vegetação reduz a evapotranspiração, o que mantém o ambiente quente, seco e desconfortável por mais tempo.

Esse cenário não se distribui de forma igual pela cidade. Regiões periféricas, favelas e bairros onde vive a população de menor renda historicamente recebem menos investimentos em infraestrutura e planejamento urbano e isso também aparece nas ações de prevenção e mitigação do calor. Em geral, essas áreas têm poucas árvores, escassez de áreas verdes, urbanização intensiva e condições habitacionais mais precárias.

E a própria natureza oferece caminhos para enfrentar esse problema. Ampliar a cobertura vegetal é uma das estratégias mais eficazes. Dados da prefeitura do Rio mostram a dimensão da desigualdade: a cidade tem um déficit estimado de 860 mil árvores, sobretudo nas Zonas Norte e Oeste, onde se concentra grande parte da população de baixa renda. Entre as 15 áreas com pior classificação no ranking de arborização, dez estão na Zona Norte e nenhuma na Zona Sul, região mais rica da capital.

Levantamento do Centro de Operações Rio (COR), de 2025, reforça essa diferença. Ao analisar as temperaturas máximas diárias registradas na cidade, foram identificadas variações superiores a 7 °C entre bairros. O maior contraste ocorreu entre Irajá, na Zona Norte, que registrou 39,2 °C, e o Jardim Botânico, na Zona Sul, que marcou 31,6 °C no mesmo dia. Uma diferença de 7,6 graus em uma distância inferior a 12 quilômetros.

O estado do Rio como estudo de caso e as Soluções Baseadas na Natureza

O estado do Rio de Janeiro mostra, de forma clara, como os impactos das mudanças climáticas, como o calor extremo e a intensificação das ilhas de calor, tendem a ser mais fortes em áreas com urbanização intensa e grandes desigualdades sociais. É a partir dessa realidade que o estado foi escolhido como estudo de caso do projeto do IIS “Ferramenta Analítica para Mitigação de Desastres Ambientais por meio de Soluções Baseadas na Natureza”, desenvolvido em parceria com a Swiss Re.

A iniciativa busca avaliar como as Soluções Baseadas na Natureza podem ajudar a mitigar e prevenir desastres ambientais. Em especial, o projeto analisou o papel da vegetação nativa no controle do calor e na geração de outros benefícios à população.

A metodologia utiliza modelagem espacial para simular diferentes cenários futuros de uso e ocupação do solo, como expansão urbana e variações na cobertura vegetal, associados a dados de mudanças climáticas. Com isso, é possível analisar como essas Soluções Baseadas na Natureza contribuem para reduzir riscos ao longo do tempo e estimar, por exemplo, de que forma a restauração ou a perda de áreas verdes afeta o conforto térmico em diferentes regiões.

As análises, que unem informações ambientais com dados socioeconômicos, ajudam a identificar onde os benefícios das Soluções Baseadas na Natureza são maiores e a urgência de ação é mais elevada. Essa base científica pode orientar decisões sobre investimentos em restauração da vegetação, manutenção de áreas verdes e infraestrutura urbana mais sustentável.

A partir da experiência no Rio, está sendo desenvolvida uma ferramenta analítica que funcione como um guia para apoiar planejadores urbanos e tomadores de decisão. A ideia é que ela possa ser adaptada e aplicada em outros contextos, contribuindo para políticas públicas e iniciativas de adaptação às mudanças climáticas, incluindo ações voltadas à redução da desigualdade térmica.

Para enfrentar o calor e melhorar o conforto térmico, algumas medidas já são bem conhecidas e comprovadamente eficazes: criação e manutenção de parques, praças e corredores verdes, arborização de bairros densamente povoados e incentivo a soluções construtivas sustentáveis, como telhados e fachadas verdes.

Integrar essas ações ao planejamento urbano, com base em evidências científicas e critérios de prioridade social, é um passo essencial para reduzir desigualdades climáticas e tornar as cidades mais resilientes e agradáveis para quem vive nelas.

O projeto

O projeto foi um dos cinco vencedores do “Desafio de Modelagem de Cenários de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos”, organizado pela Swiss Re para apoiar financeiramente pesquisas sobre o tema. O IIS venceu apresentando como proposta o desenvolvimento de uma ferramenta analítica para guiar a implementação de Soluções baseadas na Natureza (SbN). Outros parceiros, além da SwissRe, são: AXA, EY e WWF.

Colaboradores Relacionados (2)

Parceiros Relacionados (4)

AXA Research Fund Ernst & Young (EY) Swiss Re Foundation World Wide Fund for Nature (WWF)