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30.03.26

Mês da Mulher: diretora executiva do IIS é uma das 23 mulheres mais influentes da Ciência brasileira

Março, celebrado como o Mês da Mulher, trouxe um importante reconhecimento ao IIS. Agnieszka Latawiec, fundadora e diretora executiva do Instituto, está, ao lado de 22 outras pesquisadoras de diversas áreas, na lista das cientistas mais citadas em documentos relacionados a tomadas de decisão em Políticas Públicas, de acordo com relatório da Agência Bori e da plataforma Overton. Cada uma delas tem ao menos 150 citações em documentos estratégicos, relatórios técnicos e pareceres usados por governos, organismos internacionais e organizações da sociedade civil.

A participação das mulheres na Ciência tem aumentado nos últimos 20 anos. Segundo levantamento da editora científica internacional Elsevier, publicado também pela Agência Bori, o percentual de mulheres entre autores de publicações científicas no Brasil passou de 38% em 2002 para 49% em 2022. Quando se olha exclusivamente para as áreas STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), essa presença feminina subiu de 35% em 2002 para 45% em 2022.

No IIS, esse cenário é ainda mais acentuado: as mulheres correspondem a 71% dos colaboradores e ocupam 80% das posições de liderança.

“Precisamos de mais mulheres na ciência e de mais dados feitos por mulheres. Isso não é só igualdade, é qualidade científica”, afirma Agnieszka, em entrevista ao site do IIS.

Doutora em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, no Reino Unido, e engenheira de proteção ambiental pela Universidade de Ciências da Vida, na Polônia, Agnieszka dedica-se a pesquisas sobre biochar, carbono, manejo sustentável do solo e restauração ecológica.

Leia, a seguir, entrevista com a cientista sobre sua visão em relação a carreira, reconhecimento e as mulheres na Ciência.

Por que a perspectiva de gênero importa na Ciência?

A perspectiva de gênero importa porque, por muito tempo, a Ciência foi feita por homens, e baseada em dados de homens. Isso molda o tipo de conhecimento que produzimos. Precisamos de mais mulheres na Ciência e de mais dados feitos por mulheres. Isso não é só igualdade, é qualidade científica.

Apesar das barreiras, sempre houve mulheres extraordinárias, como Maria Skłodowska-Curie. Polonesa, foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a única a conquistá-lo em duas áreas: Física e Química, pelas descobertas do polônio e do rádio. Em um mundo que excluía mulheres da Ciência, ela quebrou barreiras, tornou-se a primeira professora da Sorbonne (Paris) e provou, com sua trajetória e perseverança, que mulheres não só participam da Ciência: elas lideram e transformam o futuro.

Qual a importância de ser uma das 23 cientistas mais citadas em documentos estratégicos?

Não acompanho muito as redes sociais, então quando minhas colegas do IIS compartilharam essa novidade, foi uma surpresa muito emocionante. Esse reconhecimento me fortalece e me lembra do meu propósito. Mais do que algo individual, vejo isso como uma oportunidade de abrir caminhos para outras mulheres crescerem, junto comigo e além de mim.

Você viu mudanças na presença da mulher na Ciência e no IIS?

No IIS, desde o início, há 17 anos, buscamos equilíbrio entre mulheres e homens. A fundação do Instituto foi feita por uma mulher e um homem, de forma natural, complementar, não competitiva. Ou seja, as mulheres estão presentes e são atuantes na Ciência feita pelo IIS desde o início.

Ao longo dos anos, vimos, no IIS, momentos em que as mulheres estavam na liderança, porém as decisões ainda eram tomadas por homens. Isso é algo que exige cuidado e que se tornou uma lição importante para mim. Hoje, as mulheres estão na liderança real no IIS e na Ciência que fazemos e, isso, para mim, é essencial. Representatividade só faz sentido quando vem acompanhada de poder real de decisão.

Que impacto você espera das suas pesquisas em sustentabilidade no Brasil?

Meu propósito é deixar um legado com ciência robusta, que impacta positivamente as vidas, mas também acessível e aplicada. A sustentabilidade precisa sair do discurso e chegar à prática, especialmente no ambiente rural, onde eu realizo a maioria das minhas pesquisas.

Quais resultados foram mais marcantes na sua trajetória cientifica?

Destacaria dois pontos. Um deles foi trazer visibilidade ao problema do vazamento (leakage) na restauração, mostrando que podemos deslocar impactos negativos sem perceber. Outro foi a pesquisa que idealizei e coordenei sobre biochar e carbono no solo, com grande potencial para soluções climáticas.

Como a maioria feminina no IIS contribui para o diálogo com a sociedade?

A presença feminina traz sensibilidade e capacidade de articulação, características essenciais na sustentabilidade. Mas, acima de tudo, é sobre respeito e qualidade das relações. Acredito também muito na diversidade, gosto de trabalhar com mulheres e homens. O objetivo é o equilíbrio.

Ainda são necessárias mudanças estruturais no ambiente acadêmico e científico para que talentos femininos sejam mais bem aproveitados?

Com certeza. Vemos muitos espaços onde há mulheres, mas as decisões continuam nas mãos de homens. Isso precisa mudar de forma estrutural.

Também precisamos fortalecer as conexões entre a academia e outros setores, como o público, privado e terceiro setor. Isso ajuda as mulheres, especialmente as que estão em início de carreira. Nós já fazemos isso no IIS há mais de uma década, por meio de uma parceria formal com a universidade. Isso ajuda mulheres recém-formadas a entrarem em um ambiente profissional, científico e seguro. Precisamos de mais desses ambientes em vários setores, para que as recém-formadas possam crescer profissionalmente.

Além disso, nós, mulheres, devemos nos apoiar mais e criar espaços onde todas possam crescer. Ainda observo e escuto que, em alguns contextos e posições de alta gestão, nem sempre esse apoio acontece como poderia. Isso me entristece, mas também me motiva ainda mais a contribuir para ambientes mais colaborativos e inclusivos.

Qual mensagem você gostaria de deixar neste Mês da Mulher

Sejam gentis umas com as outras — a nossa força está na união e na serenidade. E podem contar comigo: estou com vocês e para vocês.

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