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15.05.26
Incentivos financeiros não são suficientes para frear o desmatamento — e podem falhar onde mais importam
Um estudo do IIS publicado na revista Ecological Economics traz um alerta importante para o debate sobre conservação no Brasil: pagar para conservar nem sempre funciona — especialmente onde o desmatamento é mais lucrativo. A pesquisa — que investiga os limites e as condições de efetividade de incentivos financeiros no Cerrado brasileiro, um dos biomas mais pressionados pela expansão agrícola.
O trabalho, intitulado “Adverse selection and severe design constraints in PES: A choice experiment in a deforestation hotspot of the Brazilian Cerrado”, é resultado de um projeto do IIS que aplica ferramentas da economia comportamental à cadeia da soja, buscando entender como produtores tomam decisões em contextos de alta pressão econômica.
Os resultados mostram que, em regiões de fronteira agrícola, incentivos financeiros precisam competir diretamente com a rentabilidade da produção. Quando isso não acontece, os impactos tendem a ser limitados. A análise foca em programas de Pagamento por Serviços Ecossistêmicos (PES) na região do Matopiba, onde a conversão de vegetação nativa ainda é legalmente permitida. A partir de um experimento com 81 produtores de soja, o estudo estima os níveis de compensação necessários para incentivar a conservação e avalia como diferentes formatos de contrato influenciam a adesão. O valor do pagamento se mostra o principal fator de decisão, mas também revela um desafio estrutural: produtores com maior probabilidade de desmatar exigem compensações muito mais elevadas, frequentemente próximas ao retorno da atividade agrícola, enquanto aqueles com menor risco tendem a aceitar valores mais baixos.
Essa constatação expõe um problema central para o desenho de políticas: programas podem parecer eficientes do ponto de vista de custo, mas gerar pouco impacto ambiental ao atrair principalmente produtores que já não desmatariam. Em outras palavras, há o risco de criar resultados apenas aparentes, sem efetiva redução do desmatamento.
O estudo também aponta que exigências mais rígidas, como compromissos permanentes de conservação, aumentam significativamente o custo de adesão, tornando os programas ainda menos atrativos para os produtores com maior potencial de impacto. Além disso, fatores sociais — como influência entre pares e percepção de risco — também afetam as decisões, indicando que o comportamento dos produtores desempenha um papel relevante e não pode ser ignorado.
As conclusões reforçam que incentivos financeiros são uma ferramenta importante, mas insuficientes quando utilizados isoladamente em contextos de alta rentabilidade agrícola. Para que sejam efetivos, precisam ser bem calibrados, direcionados aos públicos certos e combinados com outras estratégias capazes de ampliar seu impacto. Ao evidenciar essas limitações, o estudo contribui para repensar o papel dos instrumentos econômicos na conservação e oferece subsídios concretos para o desenho de políticas públicas e privadas mais eficazes no combate ao desmatamento no Cerrado.
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