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Do declínio à regeneração: o impacto da restauração na recuperação da biodiversidade

Stéphanie Vaz, analista de Sustentabilidade do IIS

A Década das Nações Unidas da Restauração de Ecossistemas estabelece como 2030 o prazo para cessar e reverter a degradação de ecossistemas. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a restauração de 350 milhões de hectares de ecossistemas terrestres e aquáticos degradados até 2030 poderia gerar US$ 9 trilhões em serviços ecossistêmicos e remover até 26 gigatoneladas de gases de efeito estufa da atmosfera.

Passada mais de metade dessa década, o Brasil conseguiu diminuir, em 2025, o índice de desmatamento nos biomas florestais, sendo 11,08% na Amazônia e 37,9% na Mata Atlântica, na comparação com o ano anterior, segundo o Programa de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Agora, o país começa a olhar para as oportunidades de priorizar a recuperação do que foi perdido. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabelece como meta até 2030 a restauração de 12 milhões de hectares degradados. Desse total, 3,4 milhões de hectares já estão nesse processo, segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima.

Para o Brasil, essa agenda representa uma grande oportunidade socioeconômica. O IIS estima que a restauração de áreas degradadas no país tem o potencial de gerar até 360 mil empregos por ano, movimentando cerca de US$ 141 bilhões em benefícios sociais e ambientais acumulados.

Essa transformação é sustentada por novas ferramentas financeiras e científicas, como os Créditos de Biodiversidade. Esses mecanismos, desenvolvidos pelo IIS, permitem não apenas quantificar o número de árvores plantadas, mas também a complexidade biológica, especialmente em níveis de espécies de flora e fauna, interações ecológicas e conectividade que retorna ao ecossistema.

A base científica para esse movimento de recuperação do ecossistema considera a fauna muitas vezes com limiares críticos. Quando a cobertura florestal de uma região cai abaixo de 30%, a conectividade entre os fragmentos de floresta se rompe de tal forma que as espécies não conseguem mais circular, o que acelera drasticamente as extirpações, ou seja, as extinções locais.

Esse dado ganha escala quando analisado sob a ótica do estudo de Bernardo Strassburg, fundador e diretor executivo de Ciência do IIS, publicado na revista Nature, em 2020. O trabalho evidencia que a restauração estratégica de pelo menos 30% das áreas prioritárias no globo pode evitar 60,7% das extinções de espécies, apontando que a inteligência espacial na escolha de onde restaurar é tão vital quanto a quantidade de hectares recuperados.

Na prática, a eficácia de esforços de restauração pode ser observada por meio de espécies indicadoras, que servem como termômetros da saúde ambiental. Na Mata Atlântica, por exemplo, está a maior densidade demográfica do país, onde 70% da população brasileira se encontra. Consequentemente, são observadas diversas pressões de mudança no uso do solo a partir da intensa ocupação humana. No entanto, o retorno da onça-pintada, um predador de topo de cadeia, é um sinal de sucesso dos projetos de restauração no bioma. Sua presença indica que o ecossistema recuperou sua estrutura funcional, garantindo abrigo e alimento para a pirâmide biológica abaixo dela. O avistamento desse animal tem sido feito em diferentes locais de Mata Atlântica por projetos como SOS Mata Atlântica e outros voltados ao monitoramento da espécie, como o Onças do Iguaçu e o Pró-Carnívoros.

O monitoramento dessas espécies, aliado aos dados históricos de regeneração, confirma que o investimento na restauração é o caminho mais curto para reverter o declínio da vida silvestre no futuro próximo.

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