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05.06.26

No Dia Mundial do Meio Ambiente, saiba mais sobre o El Niño em 2026

Você provavelmente já recebeu algum post ou notícia alarmante sobre a chegada do El Niño no próximo semestre, certo? Publicações têm tratado o fenômeno como uma “catástrofe” ou até como o “pior da história”. Mas o que diz a ciência? Estamos mesmo frente a uma calamidade?

Mas antes disso: você sabe o que é o El Niño?

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele faz parte do ciclo climático chamado ENSO (Oscilação Sul–El Niño), que alterna fases de aquecimento (El Niño), resfriamento (La Niña) e neutralidade.

Essas mudanças afetam os padrões de chuva e temperatura em vários locais do planeta. Um ponto importante é que o El Niño não produz os mesmos efeitos em todos os lugares, favorecendo chuvas em alguns locais e altas temperaturas e estiagem em outros.

Por que há tanta atenção ao El Niño de 2026?

Os principais centros meteorológicos do mundo passaram a observar sinais mais consistentes desse aquecimento no Pacífico Equatorial, indicando boa probabilidade de formação do fenômeno no final deste ano. Entretanto, sua magnitude ainda é incerta – e o alarmismo pode distorcer o debate climático.

A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estima 82% de chance de formação do El Niño ainda neste ano, com pico previsto entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Além disso, alguns modelos climáticos sugerem possibilidade de um evento muito forte nessa época. Isso levou parte da imprensa e das redes sociais a usar expressões como “super El Niño” ou “o mais intenso em décadas”.

O que pode tornar este El Niño mais intenso?

O principal fator apontado pelos cientistas é o aquecimento global. Segundo o físico Paulo Artaxo, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e um dos principais especialistas brasileiros em mudanças climáticas, o aumento da temperatura dos oceanos pode intensificar eventos que antes seriam considerados moderados. “As mudanças climáticas podem intensificar os impactos do El Niño. Os efeitos do fenômeno tendem a ser mais severos em um planeta mais quente”, afirma Bruna Pavani, líder de Relações Institucionais do IIS.

Os eventos recentes mostram como o aquecimento global pode ampliar os impactos climáticos do fenômeno. O padrão histórico no território brasileiro continua ser semelhante: mais chuva no Sul, seca no Norte e Nordeste e aumento do risco de incêndios no Centro-Oeste mas em um planeta mais quente os efeitos tendem a ser mais severos.

O último forte episódio, entre 2023 e 2024, esteve associado à seca extrema na Amazônia, enchentes históricas no Rio Grande do Sul e incêndios no Pantanal.

O que está sendo exagerado?

Os modelos climáticos trabalham com probabilidades e cenários. Apesar das projeções e possibilidades, especialistas reforçam que ainda é cedo para afirmar a intensidade do El Niño neste ano.

Apesar do fenômeno alterar padrões atmosféricos, as secas, enchentes e ondas de calor dependem também de outros fatores climáticos – gerando ainda mais incerteza nas projeções.

O que pode ser feito para reduzir impactos?

Especialistas defendem que incerteza não não significa ausência de preparação. A adaptação climática precisa acontecer antes dos desastres, e não apenas durante as emergências. Assim, o debate não deve focar apenas no risco alarmante, mas principalmente nas possibilidades e capacidades de adaptação das cidades e dos territórios.

Entre as medidas apontadas estão:

  • criação de mapas de risco;
  • melhoria dos sistemas de drenagem urbana;
  • proteção de áreas naturais;
  • treinamento da população para rotas de fuga;
  • conservação de áreas verdes para absorver água da chuva;
  • planejamento agrícola adaptado a períodos de seca ou excesso de chuva.

Muitas dessas ações garantem benefícios duradouros, que reduzem seu custo relativo e  minimizam os danos humanos, ambientais e econômicos causados por eventos extremos.

Como Soluções baseadas na Natureza podem ajudar

As Soluções baseadas na Natureza (SbN) ganham importância crescente como ferramentas de adaptação climática. Nesse sentido, o “Guia de apoio: Tomada de decisão para o manejo de desastres ambientais via Soluções Baseadas na Natureza”, desenvolvido pelo IIS, apresenta estratégias para redução de riscos e prevenção de desastres ambientais.

Além do guia, a publicação apresneta um estudo de caso indicando como a conservação e a restauração de ecossistemas, se implementada em áreas prioritárias, pode reduzir enchentes, deslizamentos, ilhas de calor  – potenciais impactos associados ao El Niño e às mudanças climáticas.

Além de reduzir vulnerabilidades, essas soluções também contribuem para aumentar a resiliência das cidades e proteger a biodiversidade, especialmente em cenários de secas prolongadas e chuvas intensas.

Adaptação climática não depende apenas de grandes obras de infraestrutura, mas também de conservação ambiental, planejamento territorial e integração entre ciência, poder público e comunidades locais.

Informação científica não é alarmismo 

Monitorar o clima, incluindo o Oceano Pacífico, ajuda a aprimorar sistemas de defesa civil e antecipa informações para produtores ruais, governos locais, setor privado e sociedade civil se preparem melhor. No entanto, especialistas defendem cautela na comunicação. Transformar projeções probabilísticas em certezas absolutas pode gerar desinformação e até reduzir a confiança pública nas previsões científicas.

 

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