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10.06.26
Biochar une conhecimento ancestral e ciência para recuperação dos solos
O biochar, ou biocarvão, é um insumo estratégico para a recuperação de solos degradados e o enfrentamento das mudanças climáticas. Esse material sólido e rico em carbono é produzido por meio da pirólise — um processo de “combustão abafada”, no qual a biomassa (como podas de árvores ou cascas de sementes) é aquecida a altas temperaturas em um ambiente com oxigênio reduzido. Diferente da queima convencional, essa técnica estabiliza o carbono em uma forma altamente persistente, evitando que ele retorne rapidamente à atmosfera.
O conceito se inspira nas “Terras Pretas de Índio” da Amazônia, solos de altíssima fertilidade resultantes de manejos ancestrais. A ciência atual transformou essa lógica em uma técnica precisa de sequestro de carbono: enquanto a matéria orgânica convencional (como folhas e esterco) se decompõe rapidamente e libera gases de efeito estufa, o biochar apresenta alta estabilidade química. Por sua resistência à degradação microbiana, ele atua como um reservatório de carbono de longo prazo, podendo permanecer estocado no solo por centenas de anos.
Fisicamente, sua alta porosidade faz com que ele possa funcionar como uma “esponja”, o que o torna especial tanto para a agricultura, quanto para a restauração florestal. Essa característica amplia a capacidade de retenção de umidade e a adsorção (aderência) de nutrientes, reduzindo perdas por lixiviação e funcionando como um reservatório sob demanda para a vegetação. Somado à correção da acidez e ao suporte à microbiota, o material reverte limitações físico-químicas de solos degradados, viabilizando um melhor desenvolvimento radicular.
Estudos recentes realizados em áreas de Mata Atlântica, no Rio de Janeiro, com participação de pesquisadores do IIS, mostram resultados promissores para a aplicação do biochar. Em experimentos em viveiros, o material auxiliou mudas de árvores nativas, como Senna multijuga e Trema micranta, a terem melhor desempenho. No cenário global, tem crescido o número de publicações científicas sobre o tema. Países como China e Estados Unidos lideram as pesquisas, mas o Brasil tem um papel fundamental devido ao seu grande potencial agrícola e florestal.
Um dos principais debates entre cientistas é como quantificar com precisão a permanência do carbono no solo. Esse refinamento é um passo fundamental para que o biochar possa ser integrado aos mercados de créditos de carbono, com a transparência e segurança necessárias.
Apesar dos benefícios, o uso do biochar ainda enfrenta o desafio da escala: é preciso viabilizar tecnologias e processos que sejam economicamente acessíveis a produtores rurais. O objetivo é consolidar modelos de economia circular que transformem resíduos de biomassa em recursos estratégicos, promovendo a funcionalidade dos solos, a segurança alimentar e a resiliência climática a longo prazo.