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Brasil: a biodiversidade que vai além das florestas
Carolina Mazzi e Fernando Resende
O Brasil é um dos países com maior biodiversidade do planeta. Segundo o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o território brasileiro reúne cerca de 15% das espécies do mundo, com mais de 124 mil espécies da fauna, 44 mil da flora e 8 mil de fungos conhecidos.
Distribuída entre seis biomas terrestres e o sistema costeiro-marinho, essa diversidade resulta de diferentes condições climáticas, geológicas e ecológicas, que favoreceram o surgimento de formas de vida e adaptações ao longo de milhões de anos.
Conhecer essa biodiversidade significa compreender não apenas quais espécies vivem no Brasil, mas também como elas se relacionam, quais funções desempenham nos ecossistemas e por que sua conservação depende de estratégias diferentes em cada território.
Nem toda a biodiversidade brasileira está nas florestas
A Amazônia e a Mata Atlântica costumam concentrar a atenção quando o assunto é biodiversidade. Entretanto, os ambientes abertos, como savanas, campos e áreas úmidas, também abrigam ricas comunidades biológicas únicas, que não podem ser substituídas por florestas.
O Cerrado, por exemplo, é a savana tropical com maior biodiversidade do mundo. Sua vegetação é extremamente diversa, reunindo desde formações campestres, como os campos rupestres, até formações florestais, como o cerradão. Muitas plantas possuem raízes profundas e estruturas subterrâneas que permitem resistir há meses com pouca chuva e, em determinadas condições, ao fogo.
A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro e está entre as regiões semiáridas com maior diversidade biológica do mundo. Sua vegetação é adaptada à forte sazonalidade das chuvas, marcada por longos períodos de escassez hídrica. Entre as estratégias desenvolvidas pelas plantas estão a perda sazonal de folhas e a capacidade de armazenar água em suas folhas, caules e raízes. Sua variedade de ambientes está associada a diferentes condições de relevo, solo e disponibilidade de água, contribuindo para a ocorrência de uma série de espécies únicas de seus ecossistemas.
O Pampa, por sua vez, concentra grandes extensões de formações campestres, com elevada diversidade de plantas herbáceas. Além dos campos naturais, outras formações como capões de mata, matas ciliares e banhados compõem uma paisagem diversificada, formando um mosaico de ambientes complexo com diferentes condições ecológicas. Apesar de ser pouco reconhecido como um bioma importante para a biodiversidade, o Pampa abriga 12% das espécies do país, embora ocupe apenas 2% do território brasileiro.
Essas diferenças demonstram por que conservar a biodiversidade não significa simplesmente manter ou aumentar a cobertura florestal. É necessário proteger e restaurar os ecossistemas de acordo com suas características naturais e sua dinâmica ecológica própria.
A biodiversidade também está debaixo da terra
Quando pensamos em biodiversidade, geralmente lembramos de árvores, aves e mamíferos. Entretanto, parte das relações ecológicas que sustentam esses organismos acontece no solo.
Insetos, minhocas, fungos, bactérias e outros organismos participam da decomposição da matéria orgânica, da ciclagem de nutrientes e da formação e manutenção da estrutura do solo. Esses processos influenciam a disponibilidade de nutrientes e água para as plantas, além de contribuir para o armazenamento de carbono. As relações entre fungos e raízes, por exemplo, favorecem a absorção de nutrientes pelas plantas. Em contrapartida, os fungos recebem compostos orgânicos produzidos pela fotossíntese.
Por isso, dar atenção especial à saúde do solo é fundamental para restabelecer as comunidades biológicas e processos ecológicos dos ecossistemas, sendo imprescindível também para a produção sustentável de alimentos.
Fogo: papel ecológico importante, mas ameaça nos tempos atuais
Apesar do fogo ser um componente natural da dinâmica de determinados ecossistemas brasileiros, especialmente do Cerrado, a intensificação de incêndios ameaça a biodiversidade e os resultados de ações de conservação e restauração.
Ao longo de sua história evolutiva, diversas espécies de plantas desenvolveram características que favorecem sua sobrevivência e recuperação após incêndios. Entre elas estão cascas espessas, órgãos subterrâneos e estruturas que protegem partes vitais das plantas. Em determinadas condições, o fogo pode contribuir para a reprodução de determinadas espécies e é importante para a manutenção de ambientes abertos.
Entretanto, a frequência, a intensidade e a época dos incêndios influenciam seus efeitos sobre a biodiversidade. Em alguns ecossistemas, o fogo natural está associado ao início do período das chuvas, quando o aumento da umidade torna a vegetação menos seca e pode limitar a intensidade e a extensão das áreas queimadas. Por sua vez, incêndios de origem humana geralmente ocorrem em períodos mais secos e podem apresentar elevada intensidade e frequência. A combinação desses fatores pode prejudicar a saúde do solo, comprometer a regeneração da vegetação e impactar os ciclos de reprodução de plantas e animais.
A distinção entre o papel ecológico do fogo e os impactos de incêndios associados às atividades humanas é fundamental para orientar estratégias de conservação e manejo de ecossistemas.
O tema integra o projeto Modelagem de Risco de Incêndio para Iniciativas de Restauração em Larga Escala no Brasil, desenvolvido pelo IIS. A iniciativa integra clima, uso da terra, relevo e ação humana em modelos preditivos capazes de estimar o risco de fogo em áreas potencialmente restauráveis, considerando as especificidades de cada bioma. O objetivo é subsidiar decisões que contribuam para a permanência das áreas restauradas e para a conservação dos serviços ecossistêmicos.
Estratégias complementares
Reduzir as principais fontes de ameaças aos ecossistemas naturais e restaurar ambientes degradados são estratégias complementares para favorecer a recuperação da natureza ao longo do tempo.
Para o Brasil, o desafio é conservar a biodiversidade em toda a sua complexidade, favorecendo a manutenção dos processos ecológicos e dos serviços ecossistêmicos dos quais a sociedade depende. Isso exige reconhecer que diferentes ambientes apresentam dinâmicas próprias e, assim, demandam estratégias de conservação e restauração adequadas a cada contexto.
Referências:
Fontes e referências
Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA)
Biodiversidade e Biomas. Dados sobre espécies conhecidas, diversidade biológica e características dos ecossistemas brasileiros.
https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade-e-biomas/biodiversidade
Sexto Relatório Nacional para a Convenção sobre Diversidade Biológica. Diagnóstico sobre a biodiversidade brasileira, seu conhecimento científico e os desafios de conservação.
IIS – Projetos
GEF Terrestre – Estratégias de Conservação, Restauração e Manejo para a Biodiversidade da Caatinga, Pampa e Pantanal.
https://www.iis-rio.org/projetos/gef-terrestre/
Modelagem de Risco de Incêndio para Iniciativas de Restauração em Larga Escala no Brasil.
Futuro dos Solos Brasileiros: fronteiras para a produção sustentável de alimentos.
Métricas de Ganho Líquido de Biodiversidade em Ecossistemas Terrestres.
No Caminho da Mata Atlântica: restaurando paisagens e fortalecendo cadeias produtivas locais no Mosaico Central Fluminense.
https://www.iis-rio.org/projetos/no-caminho-da-mata-atlantica/
Áreas Prioritárias para Restauração da Vegetação Nativa no Brasil.
https://www.iis-rio.org/projetos/restauracao-da-vegetacao-nativa-no-brasil/
IIS – Publicações científicas e artigos
Enfrentando a urgência da crise climática e da biodiversidade por meio da restauração estratégica de ecossistemas no Brasil. Estudo publicado na revista Biological Conservation.
Planejamento para a restauração da conectividade funcional no Brasil.
Fogo no Cerrado: quando as queimadas fazem parte do bioma e quando se tornam uma ameaça.
Para além do óbvio: como manter a multidimensionalidade da biodiversidade em áreas restauradas.
Conectividade ecológica: você sabe o que é?