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Fogo no Cerrado: quando as queimadas fazem parte do bioma e quando se tornam uma ameaça
Carolina Mazzi e Clarice Mendes
Com a chegada dos meses mais secos do ano, o Cerrado entra no período de maior ocorrência de incêndios. Entre agosto e outubro concentra-se grande parte da área queimada no Brasil, com pico normalmente registrado em setembro. Em 2025, 8,7 milhões de hectares queimaram no Cerrado, que, mesmo abaixo de sua média histórica de 9,6 milhões de hectares por ano, foi o bioma com maior área atingida pelo fogo no país.
Os dados de 2026 já mostram a concentração dos focos no bioma. Em junho, antes do período mais crítico da estação seca, o Cerrado respondeu por 57,8% dos 5.209 focos de fogo ativo registrados no Brasil pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). Para agosto e setembro, o Instituto aponta aumento do risco de queimadas e incêndios florestais no Brasil Central.
Entender esse cenário, no entanto, exige uma distinção importante: nem todo fogo tem a mesma origem ou produz os mesmos impactos. O Cerrado é um bioma adaptado à ocorrência de incêndios naturais, principalmente os provocados por raios, e o fogo faz parte de sua dinâmica ecológica há milhares de anos. Enquanto as queimadas são geralmente associadas ao uso intencional e controlado do fogo na vegetação, os incêndios são não planejados e com potencial danoso durante sua propagação.
Compreender onde, quando e em quais condições esses incêndios ocorrem também é importante para a restauração ecológica. O Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), desenvolve o projeto “Modelagem de Risco de Incêndio para Iniciativas de Restauração em Larga Escala no Brasil”. A iniciativa combina dados históricos de queimadas e variáveis bioclimáticas e socioeconômicas para desenvolver modelos capazes de estimar o risco de incêndio em áreas prioritárias para restauração. O objetivo é incorporar esse risco ao planejamento e aumentar as chances de permanência das áreas restauradas no longo prazo. No Cerrado, o modelo desenvolvido pelo IIS detectou que fatores climáticos foram os mais importantes para explicar a recorrência histórica de queimadas de 2002 a 2025.
O fogo faz parte do Cerrado
Incêndios naturais no Cerrado são provocados principalmente por raios e tendem a ocorrer nas transições entre as estações seca e chuvosa. Ao longo de milhares de anos, a ocorrência periódica do fogo contribuiu para moldar o bioma.
Muitas plantas desenvolveram características que permitem sobreviver às chamas, como cascas espessas, gemas protegidas e estruturas subterrâneas que armazenam reservas e possibilitam a rebrota. Em algumas espécies, o fogo também estimula a floração e outros processos reprodutivos.
Por isso, eliminar completamente o fogo também pode alterar a dinâmica de áreas do Cerrado. A exclusão por longos períodos favorece o acúmulo de biomassa seca, que funciona como combustível e pode contribuir para incêndios mais intensos quando o fogo volta a ocorrer.
Quando o regime do fogo muda
O problema, portanto, não é simplesmente a presença do fogo, mas alterações em seu regime: quando, onde, com que frequência e intensidade ele ocorre.
Hoje, a ação humana é responsável pela maior parte das ignições no Cerrado. Estudo publicado em 2026 na Communications Earth & Environment estimou que quase 90% das ignições no bioma têm origem humana. Enquanto incêndios provocados por raios se concentram principalmente nas transições entre as estações, as ignições humanas ampliam a ocorrência do fogo durante os meses mais secos.
Nesse período, a baixa umidade e a grande quantidade de vegetação seca favorecem a propagação das chamas. O mesmo estudo mostrou que incêndios associados à ação humana podem atingir áreas cerca de dez vezes maiores e apresentar intensidade aproximadamente duas vezes superior à daqueles iniciados por raios.
Incêndios frequentes ou muito intensos podem aumentar a mortalidade da vegetação, modificar a composição das espécies e reduzir o tempo disponível para recuperação entre um evento e outro. O Cerrado apresenta, inclusive, a maior recorrência de fogo entre os biomas brasileiros: 3,7 milhões de hectares queimaram mais de 16 vezes entre 1985 e 2024.
Isso não significa que todo fogo provocado por pessoas tenha os mesmos efeitos. O uso humano do fogo no Cerrado inclui desde incêndios acidentais e queimadas associadas ao uso da terra até práticas tradicionais e queimas prescritas realizadas para manejo. Estratégias de Manejo Integrado do Fogo consideram justamente essas diferenças e as características ecológicas de cada território. Geralmente, a queima prescrita é realizada fora da estiagem para reduzir a biomassa seca disponível como combustível durante o pico dos incêndios.
Para um bioma que evoluiu com o fogo, o desafio não é simplesmente impedir que ele ocorra. É compreender os diferentes regimes de fogo, reduzir incêndios de alto impacto e incorporar esse conhecimento às estratégias de conservação e restauração, especialmente diante das mudanças climáticas e da intensificação dos períodos de seca, como previsto para o super El Niño deste ano.
Fontes
SEGURA-GARCIA, C. et al. Human ignitions dominate the fire regimes of the Brazilian Cerrado*. Communications Earth & Environment, 2026.
PIVELLO, V. R. The Use of Fire in the Cerrado and Amazonian Rainforests of Brazil: Past and Present. Fire Ecology, 2011.
FIDELIS, A.; ZIRONDI, H. L. And after fire, the Cerrado flowers: A review of post-fire flowering in a tropical savanna. Flora, 2021.
PILON, N. A. L. et al. The diversity of post-fire regeneration strategies in the cerrado ground layer. Journal of Ecology, 2021.
SIMON, M. F. et al. Recent assembly of the Cerrado, a neotropical plant diversity hotspot, by in situ evolution of adaptations to fire. Proceedings of the National Academy of Sciences, 2009.
MAPBIOMAS. Relatório Anual do Fogo 2025. 2026.
INPE. Programa Queimadas – Boletim InfoQueima. 2026.
INSTITUTO INTERNACIONAL PARA SUSTENTABILIDADE (IIS). Modelagem de Risco de Incêndio para Iniciativas de Restauração em Larga Escala no Brasil.