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Para além do óbvio — como manter a multidimensionalidade da biodiversidade em áreas restauradas

Thaís Andrade Ferreira Dória e Marcela Barbosa

 

Quando pensamos em restauração ecológica, a imagem mais comum é a de árvores sendo plantadas em uma área degradada. Embora essa etapa seja importante, restaurar um ecossistema vai muito além do plantio de árvores ou da recuperação da cobertura vegetal da paisagem. O grande desafio é garantir que essas áreas voltem a sustentar a biodiversidade em toda a sua complexidade e os processos ecológicos que mantêm os ecossistemas funcionando ao longo do tempo. 

Para isso, é importante reconhecer que a biodiversidade é complexa e multifacetada, não podendo ser traduzida por um único atributo ecológico. Como se trata de um conceito multidimensional, é preciso considerar que os componentes da biodiversidade operam em múltiplos níveis – desde genes, populações e espécies até comunidades, ecossistemas e paisagens – constituindo uma ampla rede de interações e processos ecológicos responsáveis pela manutenção da vida. 

Nesse contexto, uma floresta aparentemente restaurada pode não ser suficiente para representar um ecossistema íntegro ecologicamente. Por exemplo, uma área restaurada pode apresentar pouca conectividade funcional ou ausência de espécies-chave essenciais para desempenhar funções ecológicas, como dispersão de sementes e polinização. A área, em si, pode até apresentar muitas espécies, mas ainda assim ter reduzida diversidade funcional — ou seja, pouca variedade de funções ecológicas essenciais para o equilíbrio do ecossistema. Em outras palavras, restaurar vegetação não significa restaurar biodiversidade.  

Felizmente, a crescente compreensão sobre a natureza multidimensional da biodiversidade vem transformando a forma como as áreas restauradas são avaliadas. Hoje, é cada vez mais reconhecido que nenhuma métrica isolada é capaz de representar todos os aspectos da biodiversidade. Indicadores tradicionalmente utilizados – como número de espécies ou tamanho da área restaurada – permanecem relevantes, mas, isoladamente, são insuficientes para representar os benefícios da restauração para as dimensões ecológicas da biodiversidade que vão além desses indicadores.  

Quanto a essas dimensões, a biodiversidade abrange diferentes atributos (como composição, estrutura, função, risco) que se manifestam em diferentes níveis de organização (como paisagem, ecossistemas/comunidades, espécies/populações, genes). Para compreender se uma área restaurada está efetivamente recuperando sua biodiversidade, é necessário observar como se comportam esses atributos e níveis.  

 

Atributos 
Composição  Quais espécies e habitats estão presentes? Qual é a identidade/composição destes elementos da biodiversidade? 
Estrutura  Como a biodiversidade está organizada no espaço-tempo em uma dada paisagem? 
Função  Como ocorrem os processos ecológicos e os fluxos de matéria e de energia? Como se dá o funcionamento dos ecossistemas? 
Risco  Quais ameaças afetam espécies, habitats e ecossistemas? Qual o valor de conservação de espécies, habitats e ecossistemas? 
Níveis de Organização 
Paisagem   Como as espécies estão distribuídas na paisagem? Há conexão ou fragmentação de habitats? 
Ecossistemas/Comunidades  Como estão organizadas as espécies para constituir as comunidades ecológicas e diferentes ecossistemas? 
Espécies/Populações  Como estão a abundância, os parâmetros demográficos e o estado de conservação de uma dada espécie?  
Genes   Existe diversidade genética suficiente para adaptação às mudanças ambientais? 

 

Não por acaso, essa multidimensionalidade ajuda a explicar por que projetos de restauração e de compensação da biodiversidade com base em ações de restauração têm incorporado abordagens que consideram conjuntos de métricas para avaliar a biodiversidade. Assim, em vez de focar em um único indicador, essas abordagens combinam diferentes métricas para tentar capturar um conjunto mais amplo de dimensões, contribuindo, assim, para uma compreensão mais abrangente e integrada da biodiversidade.  

No Brasil, o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) vem desenvolvendo estudos voltados à criação, adaptação e aplicação de métricas que permitam avaliar múltiplos atributos e níveis de organização da biodiversidade em áreas restauradas. O objetivo é ampliar a capacidade de monitorar não apenas a presença de vegetação, mas também a integridade ecológica, a funcionalidade dos ecossistemas e os riscos associados à perda de biodiversidade. 

Mais do que uma exigência técnica ou regulatória, medir adequadamente a biodiversidade tornou-se uma necessidade estratégica em escala global. O Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal – firmado no âmbito da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da ONU – estabeleceu metas ambiciosas para interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Paralelamente, iniciativas internacionais como a TNFD (Taskforce on Nature-related Financial Disclosures) e a SBTN (Science Based Targets Network) vêm orientando empresas e instituições a reconhecer riscos relacionados à natureza, estabelecer metas baseadas em ciência e incorporar a biodiversidade aos processos de tomada de decisão, gestão e reporte corporativo. 

Nesse contexto, restaurar ecossistemas exige ir muito além da recomposição visual da paisagem. O desafio, como já foi dito, não se limita a recuperar vegetação e aumentar a cobertura vegetal, mas compreender como reduzir riscos à biodiversidade, reconstruir relações ecológicas essenciais e restabelecer a capacidade de regeneração dos ambientes naturais.  

Isso significa reconhecer que biodiversidade não é um quadro estático, mas um sistema dinâmico sustentado por interações contínuas entre espécies. Interações estas que promovem e sustentam a qualidade de habitats, os fluxos ecológicos e processos adaptativos essenciais para assegurar a capacidade de resposta dos ecossistemas às mudanças climáticas e às pressões humanas. Portanto, é justamente a biodiversidade — expressa em suas múltiplas dimensões, incluindo espécies, funções e interações ecológicas — que fortalece, ao longo do tempo, a resiliência dos ambientes restaurados. 

 

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