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Conectividade ecológica: você sabe o que é?

Luisa Liévano, analista de Sustentabilidade do IIS

A conectividade ecológica vem ganhando espaço no debate ambiental global à medida que a perda de biodiversidade se intensifica. Mais do que proteger áreas isoladas, a ciência mostra que o futuro dos ecossistemas depende da capacidade de manter ou restaurar conexões entre fragmentos naturais em paisagens – que estão cada vez mais alteradas pela ação humana.

Hoje, a principal pressão sobre a biodiversidade é a mudança no uso da terra, que leva à perda e fragmentação de habitats. Esse processo interrompe fluxos ecológicos essenciais, como o deslocamento de espécies e o intercâmbio genético, reduzindo a resiliência dos ecossistemas. Segundo a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), a integração entre conservação, restauração e planejamento espacial é decisiva para evitar impactos negativos sobre a biodiversidade e garantir o uso sustentável da natureza.

Nesse contexto, a conectividade ecológica se consolida como um dos principais instrumentos para enfrentar a crise ambiental. O conceito se refere à capacidade de espécies se moverem e interagirem em paisagens fragmentadas, um fator determinante para a sobrevivência das espécies, além de adaptação e manutenção dos processos ecológicos que sustentam a vida no planeta (Convenção da Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres – CMS, 2020).

No Brasil, país que concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, o desafio é ainda mais complexo. Milhares de espécies estão ameaçadas de extinção, com a destruição de habitats sendo o principal vetor dessa perda. Nesse cenário, garantir conectividade não é apenas uma estratégia de conservação, mas uma condição para manter serviços ecossistêmicos essenciais, como regulação climática, segurança hídrica e produção de alimentos.

É nesse ponto que estudos recentes conduzidos pelo Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) avançam ao oferecer uma base científica aplicada ao território. O artigo Planning for the Restoration of Functional Connectivity in Brazil, publicado no Journal of Biogeography, apresenta a primeira análise em escala nacional sobre como a restauração pode maximizar a conectividade ecológica em todos os biomas brasileiros.

O estudo parte de uma abordagem inovadora: em vez de tratar a restauração de forma homogênea, identifica quais áreas têm maior potencial de reconectar ecossistemas. Para isso, utiliza o ponto de vista das espécies e modelagem espacial avançada e algoritmos de priorização que analisam, pixel a pixel, a contribuição de cada área para a conectividade funcional. A conectividade funcional considera que a percepção de uma paisagem conectada varia segundo a espécie.

Na prática, isso significa que nem todas as áreas degradadas têm o mesmo peso estratégico. Restaurar regiões específicas pode gerar ganhos muito mais expressivos para a conectividade do que ações dispersas. Os resultados indicam, por exemplo, que áreas de transição entre biomas (como Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica) e regiões sob forte pressão, como o arco do desmatamento na Amazônia, concentram alto potencial de reconexão ecológica.

A pesquisa também evidencia que a conectividade varia conforme a capacidade de deslocamento das espécies. Espécies com maior mobilidade conseguem manter conexões mesmo em paisagens fragmentadas, enquanto outras dependem diretamente da existência de corredores ecológicos. Essa diferença reforça a necessidade de planejamento baseado em múltiplos cenários ecológicos, e não em soluções únicas.

Além de contribuir para a conservação da biodiversidade, a conectividade ecológica tem implicações diretas para a agenda climática. Ecossistemas conectados tendem a ser mais resilientes às mudanças climáticas, permitindo que espécies migrem em resposta a alterações de temperatura e regimes de chuva. Ao mesmo tempo, a restauração estratégica pode ampliar o sequestro de carbono e fortalecer serviços ecossistêmicos.

A abordagem apresentada pelo IIS dialoga diretamente com recomendações internacionais. A IPBES destaca que o planejamento espacial integrado, que inclui conectividade, é essencial para alinhar políticas de biodiversidade, clima e desenvolvimento. Por isso, a atual avaliação metodológica da IPBES tem o intuito de avaliar como o planejamento espacial integrado e a conectividade ecológica podem prevenir a perda de biodiversidade causada pela mudança no uso da terra e do mar, no qual participo como fellow da IPBES.

Do ponto de vista econômico, essa lógica também ganha relevância. Estudos globais apontam que a perda de biodiversidade implica custos crescentes para a sociedade, enquanto a conservação e restauração de ecossistemas geram benefícios diretos e indiretos para diferentes setores.

No Brasil, onde coexistem áreas altamente preservadas e regiões sob intensa pressão, a conectividade ecológica surge como um elo entre conservação e desenvolvimento. Isso é especialmente relevante na Mata Atlântica, um ecossistema altamente fragmentado onde priorizar áreas para restauração que podem aumentar a conectividade vai ser extremamente benéfico.

Ao orientar onde restaurar, como restaurar e com quais objetivos, a ciência permite transformar metas globais em ações concretas no território. O IIS tem desenvolvido projetos para orientar a seleção de áreas para a restauração no Brasil. Por exemplo, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e apoio do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF), o IIS está atualizando as áreas prioritárias para restauração em cada bioma brasileiro, visando apoiar o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e outras políticas públicas.

Além disso, o IIS também desenvolveu o projeto  “Avaliação do status de conservação de espécies e prioridades espaciais para a conservação e restauração na Bacia do Rio Doce” em parceria com a Fundação Renova e a Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), cujo intuito foi avaliar o status de conservação de 394 espécies impactadas pelo rompimento da Barragem de Fundão em Mariana (MG) e definir prioridades espaciais para conservação através da restauração de ecossistemas. Nesse projeto, o IIS identificou as áreas prioritárias para criar corredores biológicos na Bacia Hidrográfica do Rio Doce que conectassem os fragmentos de vegetação nativa existente na região.

Mais do que ampliar  , o desafio passa a ser reconectar paisagens. E, nesse processo, a conectividade ecológica deixa de ser apenas um conceito técnico para se tornar uma estratégia central na preservação da biodiversidade e na construção de soluções baseadas na natureza em escala.

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